O GANCHO DO DIA
Seu bebê tem mais de um ano, está saudável, mas continua acordando mil vezes à noite… e você fica se perguntando:
“Será que é porque dorme na nossa cama? Porque não dorme sozinho? Porque está dormindo pouco de dia?”
A ciência de HOJE traz alguns dados bem objetivos para essa angústia.
O estudo “Children’s nocturnal awakenings and sleep duration during the first two years of life in the NASCITA cohort study”, publicado em 2024 na Sleep Medicine, acompanhou 2.973 crianças italianas até 2 anos de idade e tentou responder duas perguntas simples e poderosas:PubMed
- Como evoluem os despertares noturnos no primeiro biênio de vida?
- Quais fatores mais se associam a acordar frequentemente à noite?
O que eles encontraram faz a gente olhar com mais cuidado para bed-sharing (dormir na mesma cama), para o fato de dormir sozinho no quarto e para a duração total de sono, e menos para explicações vagas como “só pode ser manha”.
O MERGULHO SIMPLIFICADO
1. O que esse estudo fez na prática?
Os autores usaram dados da coorte italiana NASCITA e acompanharam os bebês nas consultas de rotina aos 6, 12 e 24 meses. Em cada visita, os pediatras perguntavam aos pais:PubMed
- se havia despertares noturnos frequentes (relato dos pais);
- quanto tempo a criança dormia em 24h;
- se a criança dormia na mesma cama dos pais (bed-sharing) ou não;
- outras características da criança e da família (região, contexto, etc.).
Do total de 5.054 nascidos, 2.973 entraram de fato na análise final.
Destes, 29,4% tiveram despertares frequentes em pelo menos uma das visitas, com pico de 19,8% aos 12 meses.PubMed
Ou seja: quase 1 em cada 3 crianças viveu alguma fase de acordar muito à noite até os 2 anos – não é exceção, é praticamente o normal ampliado da espécie.
2. Bed-sharing, dormir sozinho e onde a família mora: quem pesa mais?
Quando os autores colocaram tudo no mesmo modelo estatístico (regressão logística multivariada), três fatores se destacaram como mais fortemente associados a acordar muito à noite:PubMed
- Dormir na mesma cama (bed-sharing)
- Aumentou em mais de 2,5 vezes a chance de despertares frequentes
- OR ajustado 2,53; IC95% 2,05–3,12
- Morar no norte da Itália
- Também associou-se a mais despertares
- OR ajustado 2,25; IC95% 1,80–2,81
- Dormir sozinho (não compartilhar cama)
- Apareceu como fator protetor
- OR ajustado 0,62; IC95% 0,45–0,89
Em linguagem de consultório: nesse grupo, crianças que dormiam na cama dos pais acordavam mais; crianças que dormiam sozinhas tinham menor probabilidade de despertares frequentes.
Importante: é um estudo observacional. Não dá pra cravar “bed-sharing causa despertares”, mas o padrão é consistente com o que outras fontes já sugerem em termos de fragmentação de sono e dificuldade de autoindução, além das já conhecidas preocupações de segurança em menores de 1 ano (SIDS, sufocação), pelas quais a AAP e sociedades de sono recomendam room-sharing sem bed-sharing no primeiro ano.Parents+1
3. Despertares e “dormir pouco”: como isso se conecta?
O estudo também olhou para duração total de sono:
- aos 12 meses, 26,9% das crianças dormiam <11 horas/24h;
- aos 24 meses, 25,0% ainda dormiam <11 horas/24h;
- em 383 crianças, essa duração curta se repetiu nas duas idades.PubMed
Lembrando que, pelas recomendações de consenso da American Academy of Sleep Medicine, o ideal é:PMC+1
- 4–12 meses: 12–16 h/24h (incluindo sonecas)
- 1–2 anos: 11–14 h/24h
Ou seja, o estudo considerou “sono curto” justamente abaixo do piso recomendado para essa faixa etária.
Quando eles cruzaram despertares frequentes com sono curto, apareceu uma associação significativa:
- crianças com despertares frequentes aos 12 ou 24 meses tinham maior chance de ter sono <11 h/24h
- OR 1,23; IC95% 1,05–1,44; p=0,012PubMed
Em bom português: acordar muito à noite anda junto com dormir menos no total do dia, o que reforça o alerta de que não é só um “detalhe de rotina” – é um padrão que rouba horas de sono numa fase em que o cérebro precisa dormir bastante.
4. O que esse estudo NÃO diz (e onde devemos ter cuidado)
Aqui entra a parte em que eu, como leitor clínico, coloco alguns freios:
- Não é um estudo de intervenção
- Ele não testou “tirar da cama dos pais” vs “deixar na cama” de forma randomizada;
- Portanto, bed-sharing pode ser tanto causa quanto consequência de bebês mais difíceis de acalmar.
- É um recorte italiano
- Fatores culturais, tipo de habitação, rotinas familiares podem influenciar
- O achado de “mais despertares no norte da Itália” provavelmente mistura padrão cultural, organização familiar e talvez até clima, e não é simplesmente “norte é ruim”.
- Não é um julgamento moral de quem dorme com o filho
- O estudo oferece dados de associação, não manda ninguém “parar imediatamente” de bed-sharing;
- O papel da gente, como coluna de inovação médica, é traduzir esses dados e conectar com o que já sabemos sobre segurança (SIDS, sufocação) e higiene do sono.
IMPLICAÇÕES E CHAMADA
O que eu tiro desse trabalho para a prática do consultório e para as conversas com famílias exaustas:
- Despertar noturno no primeiro biênio é comum, mas não é neutro.
Quase 1/3 das crianças passou por fases de muitos despertares, e isso se associou a dormir menos do que o recomendado em 12–24 meses. Não é só questão de “cansa os pais”: também importa para o desenvolvimento global da criança.PubMed+1 - Padrão de sono é comportamental e relacional – e o ambiente de dormir conta.
Bed-sharing, ao menos nessa coorte, aparece ligado a mais despertares; dormir sozinho, a menos. Isso dá munição para a gente trabalhar com as famílias na direção de rotinas de sono mais estruturadas, quarto seguro próprio e consistência nas respostas ao choro – sempre respeitando cada contexto. - Pediatria precisa trazer sono para o centro das consultas de 6, 12 e 24 meses.
O estudo termina pedindo exatamente isso: intervenções precoces baseadas em boa prática de sono integradas à puericultura. Na prática, é perguntar ativamente sobre despertares, duração total de sono, arranjo de cama/quarto e oferecer orientação concreta, não só um “isso é normal, vai passar”.
Minha leitura pessoal: sono do bebê não é só fase “que toda família sofre” – é um ponto de intervenção em saúde infantil, tão sério quanto alimentação e vacinação, e com impacto direto no bem-estar dos pais.
Essa foi a nossa dose de ciência de hoje na coluna de Inovação Médica.
Agora eu quero ouvir você: no seu dia a dia (como pediatra ou como mãe/pai), qual tem sido a maior dificuldade – o bebê acordar muito, a discussão sobre cama compartilhada ou a falta de orientação clara sobre o que é esperado em cada idade? Deixe sua opinião nos comentários e volta amanhã – seguimos acompanhando o que a ciência do sono infantil está revelando.
Fonte:
Segre G, Clavenna A, Roberti E, Campi R, Rapisardi G, Bonati M. Children’s nocturnal awakenings and sleep duration during the first two years of life in the NASCITA cohort study. Sleep Med. 2024;121:127–134. PMID: 38964278. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38964278/ PubMed

