O GANCHO DO DIA
Se tem um tema que tira o sono de pais, avós e pediatras é aquele bebê “perfeitamente saudável” que passa horas chorando sem explicação.
É refluxo? É leite fraco? É alergia? Precisa trocar a fórmula? Dar remédio para gases?
A grande notícia da ciência de hoje vem da revisão “Infantile Colic: An Update”, publicada no Indian Pediatrics, que faz um raio-X honesto do que sabemos (e do que ainda não sabemos) sobre cólica do lactente – definição, causas possíveis e, principalmente, o que funciona e o que não funciona no tratamento.Indian Pediatrics+1
E o recado central é bem direto:
- cólica é benigna e autolimitada,
- o foco principal do manejo hoje é acolher e orientar a família,
- e a lista de “remédios milagrosos” com boa evidência é bem menor do que o mercado faz parecer.Indian Pediatrics
O MERGULHO SIMPLIFICADO
1. O que é, de fato, cólica do lactente hoje?
O artigo mostra como a definição evoluiu: de Wessel, lá em 1954 (regra dos “3” – mais de 3 horas/dia, 3 dias/semana, 3 semanas) até os critérios de Roma IV, mais recentes.Indian Pediatrics
Hoje, Roma IV define cólica infantil como:Indian Pediatrics+1
- lactente com menos de 5 meses (início e fim dos sintomas nesse período);
- episódios recorrentes e prolongados de choro, irritabilidade ou “fussiness”,
- sem causa aparente e que não melhoram claramente com a intervenção do cuidador;
- sem sinais de doença (sem febre, falha de crescimento, outros achados de alarme).
Traduzindo para a prática:
é o bebê que cresce bem, está clinicamente saudável, mas tem “crises” de choro intenso e difícil de consolar.
O ponto-chave de Roma IV é tirar o foco do cronômetro (horas exatas de choro) e colocar na angústia real dos pais, que é o que leva à consulta.Indian Pediatrics
2. O que pode causar cólica? Não é só “gás”…
A revisão é muito honesta: não existe uma causa única comprovada. O que temos são teorias com graus diferentes de evidência, agrupadas em dois blocos grandes:Indian Pediatrics
a) Fatores não gastrointestinais
Relacionados à mãe, ao bebê e ao ambiente:Indian Pediatrics
- mãe: tabagismo, estresse, ansiedade, técnica de alimentação;
- bebê: temperamento mais “difícil”, imaturidade do sistema nervoso central, possível forma inicial de enxaqueca;
- ambiente: pouco suporte familiar, alta tensão em casa, interação pais–bebê desorganizada (pais que interpretam mal o choro e respondem de forma pouco eficaz).
b) Fatores gastrointestinais
Aqui entram as teorias mais “clássicas”:Indian Pediatrics
- intolerância transitória à lactose (imaturidade de lactase no intestino delgado);
- alteração de microbiota intestinal;
- imaturidade do sistema nervoso entérico;
- receptores de motilina mais ativos;
- hipersensibilidade à proteína do leite de vaca em alguns casos.
Um ponto importante do artigo: amamentar ou usar fórmula, por si só, não muda a incidência de cólica – não é “culpa” do leite materno nem da fórmula em geral.Indian Pediatrics
Gosto de pensar na cólica como um “tempestade de imaturidade”: intestino, cérebro, eixo pais-bebê e ambiente, tudo ainda em fase de calibração fina.
3. O que realmente funciona no manejo – e o que a evidência derruba
Aqui o artigo é quase um “guia anti-charlatanismo” em colic.Indian Pediatrics+1
1) Primeira linha: acolher e orientar os pais
- Explicar a natureza benigna e autolimitada da cólica (tende a piorar por volta de 6 semanas e melhorar claramente após 3–4 meses).
- Validar o sofrimento da família e reforçar que não é incompetência dos pais nem, em geral, sinal de doença grave.
- Ensinar estratégias de manejo: embalar, contato pele a pele, ruído branco, rotinas mais previsíveis, turnos entre cuidadores.
O artigo é categórico: aconselhamento é, hoje, a primeira linha de tratamento.Indian Pediatrics
2) O que NÃO funciona (ou não deve ser usado)
- Simeticona
- Não mostrou benefício consistente em reduzir sintomas de cólica.Indian Pediatrics+1
- Dicyclomina
- Não é recomendada em menores de 6 meses por risco de efeitos colaterais importantes (apneia, convulsões, alterações de consciência).Indian Pediatrics+1
- Analgesia “genérica” e manobras manipulativas (como algumas formas de quiropraxia)
- Até o momento, não há evidência robusta para recomendá-las de rotina.Indian Pediatrics+1
3) O que está em “zona cinza” (promissor, mas sem prova forte)
- Probióticos (especialmente Lactobacillus reuteri em lactentes amamentados):
- Alguns estudos sugerem redução de tempo de choro, mas os resultados ainda são heterogêneos; a revisão conclui que falta evidência forte para recomendação universal.Indian Pediatrics
- Modificações dietéticas e fórmulas especiais
- Dieta de exclusão de proteína do leite de vaca para mães de lactentes com suspeita clínica de alergia pode ajudar em subgrupos;
- Fórmulas extensamente hidrolisadas ou com baixo teor de lactose são estudadas, mas, no conjunto, a revisão considera a evidência ainda insuficiente para uso irrestrito em toda e qualquer cólica.Indian Pediatrics+1
- Lactase em gotas
- Teoricamente pode ajudar em alguns casos com intolerância transitória, mas, de novo, faltam dados robustos para recomendação rotineira.Indian Pediatrics
Em resumo: fora do acolhimento e da avaliação cuidadosa de sinais de alarme, todo o resto ainda é caso a caso – mais medicina artesanal do que protocolo rígido.
IMPLICAÇÕES E CHAMADA
O que eu tiro desse artigo para a prática e para a conversa diária com famílias:
- Cólica é uma maratona emocional, não uma emergência estrutural.
Na imensa maioria dos casos, o bebê é saudável; quem está “adoecendo” é o clima familiar – exaustão, culpa, medo de estar perdendo algo grave. - O remédio mais potente ainda é uma boa consulta.
Escuta ativa, exame físico bem feito, explicação clara da evolução natural e combinação honesta de “o que sabemos” + “onde a ciência ainda é incerta” fazem mais diferença do que qualquer gotinha milagrosa. - Precisamos continuar gerando dados de qualidade.
A revisão mostra um cenário de critérios diagnósticos variados, estudos pequenos e intervenções heterogêneas. Se quisermos ir além do “consolo” e chegar a terapias verdadeiramente eficazes, vamos precisar de ensaios clínicos melhores – especialmente com probióticos e abordagens dietéticas.
Minha visão pessoal: cólica do lactente é o exemplo perfeito de condição em que o nosso papel não é só tratar o bebê, mas tratar a relação da família com aquele choro – trazendo ciência, empatia e, quando possível, evitando medicalização desnecessária.
Essa foi a nossa dose de ciência de hoje na coluna de Inovação Médica.
Quero ouvir você: como costuma abordar cólica na prática – entra mais na linha da explicação e suporte, ou sente pressão forte por “prescrever alguma coisa”? Deixe sua experiência nos comentários e volta amanhã – seguimos traduzindo a literatura em decisões reais no consultório.
Fonte:
Sarasu JM, Narang M, Shah D. Infantile Colic: An Update. Indian Pediatr. 2018;55(11):979-987.


